Portugal, teu descaminho

On March 20, 2011, in .PROSA, Luís Eusébio, by Luís Eusébio


“Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!”
(Manuel Bandeira)



Num país onde as disparidades da lei são, por vezes, chocantes e ridículas, também acontecem situações algo cómicas. Podem ser jurados os cidadãos portugueses inscritos no recenseamento eleitoral, menores de 65 anos, com escolaridade obrigatória. Curiosamente, para ser-se eleito Presidente da República ou deputado, a lei é muito menos restritiva.

Já não poderia ser jurado mas, em 2005, aos oitenta anos, Mário Soares candidatou-se para o que seria o seu terceiro mandato como Supremo Magistrado da Nação. Por outro lado, qualquer “tiririca” pode, potencialmente, representar-nos, mas não colaborar de decisão judicial, em Tribunal Coletivo.

Por um lado, dado o aumento da esperança de vida, e os desmandos financeiros que contribuem, grandemente, para o colapso do sistema de Segurança Social, aumenta-se a idade de reforma. Por outro, considera-se um cidadão, aos sessenta e cinco anos de idade, já incapaz de participação como jurado, em Tribunal de Juri. E no entanto, florescem universidades para a terceira idade.

Por raros que sejam este tipo de julgamentos em Portugal, torna-se difícil entender a lógica do legislador. O que assusta, é o uso da mesma ‘lógica’ em todo o sistema jurídico português e em todos os aspetos da vida nacional.

O mal de Portugal não está na sua dimensão territorial ou posição geográfica. O problema de Portugal é a desorganização, o laxismo, o compadrio, a corrupção, a incompetência, e os portugueses.

A incapacidade de sonhar e planear o futuro, em bases sólidas, com uma linha de continuidade transversal a qualquer força política, sendo mais do que notória, é lastimável. Elegem-se dirigentes políticos, segundo preconceitos revolucionários: os bons e os maus, a esquerda e a direita, os do povo e os da elite. Raramente, segundo critérios de probidade, competência e dedicação à causa pública.

A dívida, é a menor das maleitas portuguesas. O importante é curar as moléstias genéticas.

 

Sobre a Origem do Mal

On March 8, 2011, in .CROFT THOUGHTS, Luís Eusébio, by Luís Eusébio

Sobre a origem do mal

O culpado é Adão, que não usou camisinha.

 

Águas Selvagens

On December 18, 2009, in .POESIA, Luís Eusébio, by Luís Eusébio

Porque sonhaste o meu sonho.
Porque língua de fogo soçobrada
nas águas ardi no medronho.

E ébrio, vento manso – Ó! mulher amada -,
encrespei-te a pele. Que teu túrgido peito
eram dunas de mel. Uns lábios favo,
outros enseada por onde mavioso sibilava.

Não estavas só. Anelantes, do lusco-fusco
à alvorada, encharcámo-nos em marés vivas.
A Lua abençoou as águas mornas espargidas.

[Luís Eusébio]

 

Tolerância

On December 10, 2009, in .CROFT THOUGHTS, Luís Eusébio, by Luís Eusébio
O conceito de tolerância é de tal forma ambíguo, que tresanda a intolerância. As coisas, as pessoas, os factos, ou se aceitam ou não. Se aceitamos, não toleramos. Se não aceitamos, não toleramos.
 

Insustentabilidade

On December 7, 2009, in .CROFT THOUGHTS, Luís Eusébio, by Luís Eusébio
Que herança deixaremos aos nossos filhos?
 

Árvores

On November 29, 2009, in .PINTURA, .POESIA, Isabel Almeida, Luís Eusébio, by Luís Eusébio
Aguarela e carvão de Isabel Almeida

Tremem frígidos os ramos
Galhos afagando troncos
Brisas ululando tangos

 

(Desfloradas e tão castas
dançam nuas pelos campos)

[Luís Eusébio]
 

Café da Manhã

On November 16, 2009, in .POESIA, Luís Eusébio, by Luís Eusébio
Saboreamos croissants
com compota de framboesa
Café com leite     morno
que adoçaste com pureza
Torradas     barradas
com manteiga todo o sal
Sumo de laranjas frescas:
agridoces de Portugal

Nos matutinos o negrume
das calamidades públicas
e a denúncia de dramas
e governações abúlicas

 
 
(As Buganvílias  nos canteiros
explodindo em flor regadas
pelo orvalho enchem-nos de cor)
Em tuas mãos     a ternura
que já teu corpo doara
repousam beijos de amante
silentes     na manhã clara
Em teus olhos o brilho
e a maciez de um arminho
Doces     - que não inocentes! -
beijam-me com carinho
 
 
(Do nosso jardim profundo
pardais chilreiam pelos ramos
frenéticos     delatando ao mundo
o tanto que nos amamos)
   
[Luís Eusébio]
 
 
 

“Win or lose, sink or swim, / One thing is certain, we’ll never give in / Side by side, hand in hand, / We all stand together. ” – Paul McCartney – We all stand together

Quando a música é parte integrante e fundamental da nossa vida, frequentemente acontece elegermos um ou outro tema que nos inspira e eleva, que nos permite ver o sol raiar para além das nuvens mais escuras e espessas, que nos une e nos imbui de um espírito único e, solidariamente dinâmico.

Na vida, não raramente, temos que enfrentar dilemas. Alguns, excruciantes. E, no entanto, quando o mais fácil seria virar costas, vamos à luta. São decisões que, por vezes, nem estamos nas melhores condições psicológicas de ponderar. O instinto diz-nos que, o nosso comodismo ou cobardia, poderá afectar, irremediavelmente, as nossas vidas e as daqueles que gerámos.

Quando a justeza das nossas motivações é inegável, e a alegria dependurada nos olhos duma criança não esmorece; quando os tentáculos do polvo são enormes, poderosos, e nunca antes foram cerceados; quando as ausências nos corroem a carne, como vermes despudorados e famintos; quando o amor, é primário, único, e revela-se em empatias e nos mais nobres propósitos, sabemos então que apenas poderíamos ter seguido o caminho que percorremos.

Nem sempre se ganham as batalhas que travamos. A vida não seria vida, se não tivesse essa componente de angustia e incerteza. E nem sempre, ganhas as batalhas, o júbilo da vitória é doce. Há sempre algo de nós que fica perdido no campo de batalha. Mas, quando a vitória tem, como resultado, o solidificar de afectos; quando a vitória acontece, não só mas também, porque “We all stood together”, nada se lhe compara.

 

Retalhos da Vida de Um Virgem – XX

On October 31, 2009, in .PROSA, Luís Eusébio, by Luís Eusébio
 

Love me like a river does / Cross the sea / Love me like a river does / Endlessly… ” – Melody Gardot – Love me like a river does

Não é a página em branco que me assusta. É apenas uma página em branco. O que me assusta é o vazio dentro de mim ou, a incapacidade de a preencher, sensivelmente, com o turbilhão de pensamentos e emoções que se atropelam, que me assaltam, quando a enfrento.

Não é o teu amor que me assusta. É não amares ou não o assumires. É amar-te demais. É o temer não estar à altura de retribuir o que me devotes. É o medo de fracassar na busca dos equilíbrios instáveis. É o temor da censura, em teus olhos admiráveis. É o cansaço, visível, em minha pele engelhada.

Não são as noites escuras que me assustam. Não são os frios polares que me enregelam. Não são as chuvas ácidas que me queimam. A naturalidade, de desastres previsíveis, não me desinquieta. É apenas a vastidão da tua ausência que me dói.

Em argila, lúbrico, minhas mãos moldam teu corpo. Nele domicilio toda a ternura, e absorto, sou ceramista extasiado: o teu pescoço é poço de beijos; os teus seios, cerne de anseios; o teu ventre, meia-lua magnificente; as coxas tuas, onde me enlevo abençoado.

Da obra prima, resto arquitecto saciado.

 

Saí à rua

On October 24, 2009, in .POESIA, Luís Eusébio, by Luís Eusébio

Saí à rua. Chovia.
No passeio, lentamente,
uma jovem promitente,
caminhava em agonia.

- Ev’rything’s awright, luv?
– I’ll be fine, thanks!,
disse sustendo as lágrimas,
sorrindo-me o mais que pôde.

 

(Súbito, um raio de sol fulgira,
madrugada, em London Road)

[Luís Eusébio]