“Tinha reservado a manhã para a escrita, mas a cobardia já ganhara mais uma etapa da volta a minha vida. Como sempre faço, refugiei-me em automatismos, cuja soma permita chegarão “agora já não vale a pena” da praxe. Farejei todos os jornais online e pus em ordem o poço sem fundo da caixa do correio electrónico. De súbito caiu um e-mail. O Portocroft, de Londres, cumpria a promessa – uma engenhoca informática qualquer para transformar o meu blog numa jukebox de alta qualidade. Seguiu-se o ritual do costume: eu a torturar um tal de template, ele a dirigir-me cada passo através de e-mails, eu a explodir de frustração, “irra não consigo”, ele fazendo psicoterapia de apoio, “calma, vai ver que chega lá, professor”. Consegui. Não saberia dizer como, perdido num labirinto de esquinas anglo-saxónicas – copy, paste, save, republish e outros palavrões -, que não podem servir de álibis: a ignorância é tanta que nem o ressuscitar do esperanto me salvaria.
Missão possível terminada, não resisti a dizer-lhe que o episódio me fazia lembrar Rex Harrison em My Fair Lady. Incrédulo, por ter vencido a batalha contra o inglês de classe baixa de Audrey Hepburn: “She’s got it; I think she’s got it; my God!, she’s got it”. Só depois resolvi explorar o novo brinquedo. Fiquei estarrecido, o homem transferiu para lá uma parte apreciável dos discos da FNAC! E não a monte. Catalogados por grupos, existirá a expressão prateleira virtual? Quando cheguei à de música portuguesa, o inesperado – minha Mãe cantando Figueira da Foz.
As lágrimas. Tentaram e não conseguiram abrir as portadas dos meus olhos, mas molharam-nas o suficiente para que o nevoeiro reine à minha volta. Há anos que sinto precisar de uns bons dias de chuva cara abaixo, mas receio ter apertado de mais as comportas em momentos que exigiam (?) olhos secos. O mecanismo emperrou…Mas o coração não consegue absorver a água e o seu nível sobe, acho que a albufeira é tão grande que já não permitiria os desportos náuticos.
Que ideia tocante ele teve. Agora, além das cassetes no carro, tenho minha Mãe no blog, seis meses depois do seu aparecimento. - Júlio Machado Vaz in O Tempo dos Espelhos
Recordava-me do Prof. Dr. Júlio Machado Vaz, principalmente pelo seu programa ‘Sexualidades’ na RTP e de como, o simples facto de abordar assuntos tabú na sociedade portuguesa de então, tinha funcionado como um pedra no charco.
Julgo mesmo que era o único programa que não gerava conflitos lá em casa. Tanto eu, como a minha mulher de então ficávamos, por vezes, regra geral já deitados, perplexos, embevecidos mesmo. Escusado será dizer que colocámos muito do que aprendíamos em prática. E assim fiquei, desde esses tempos, com uma enorme divída de gratidão. Por mim, cuja educação sexual se resumia a pouco mais que meter o ‘coiso na coisa’ e como cidadão, pela importância que, no dia a dia, me apercebia que o programa tinha para muitos dos meus concidadãos.
Se, como disse o Vinícius de Moraes, numa célebre tertúlia em Casa de Amália, salvo erro em 1969: “Os portugueses precisavam se desengravatar”, Júlio Machado Vaz, com o seu “Sexualidades”, fez não mais do que isso.
Já o afirmei uma vez, publicamente, e continuo fiel à ideia de que, se injustiças se praticam em Portugal, e como todos sabemos nem são tão poucas quanto isso, das mais gritantes é a que deriva do facto de, não sendo caso único, o Prof. Dr. Júlio Machado Vaz nunca ter sido agraciado pelo Governo ou Presidente da República, com uma Comenda pelos inestimáveis serviços prestados. Mas, num país em que, inúmeras vezes, se agraciam aqueles que promovem os tráficos de influência desconfio que, muito provavelmente, é a melhor homenagem que se lhe pode prestar.
Quando, pela primeira vez, visitei o seu blogue, nos seus primórdios, confesso que fiquei, mais do que espantado, triste. Os artigos eram publicados uma, duas vezes por semana no máximo. E, o número de comentários diminuto. Julgo que muitas pessoas temiam invadir o espaço dum seu ídolo. Mas, aquele homem, com o seu estatuto, tinha forçosamente que ter dos melhores e mais participados blogues, em Portugal. E eu, ‘espírito de porco ‘, não podia deixar as coisas assim.
Nem tudo, muito sem dúvida, do que por lá escrevi, corresponde ‘de facto’ àquilo que penso. Motivava-me mais o gerar controvérsia e indignação. E, aos poucos, o número de artigos e de participantes foram aumentando. De tal forma que, aquele que no passado nos havia ensinado a nos ‘desengravatarmos’, se ‘desengravatou’ ele próprio, reagindo às milhentas barbaridades que por lá escrevi. Convenhamos que não era caso para menos. Tanta ignorância irrita até os deuses.
Apesar de inúmeras vezes ter sido disso acusado, nunca escrevi sob anonimato. Escrevi sempre com nicks registados e, além do mais, tendo sempre o cuidado de dar, de tal facto, conhecimento a terceiros. Sempre fui de opinião de que não há nada de inteligente em ser-se pulha. Para isso basta não ter carácter. E eu, confesso, tenho uma inadaptidão inata para lidar com filhos, cujas mães, nunca os deveriam ter tido.
Como entrei, saí. Triste mas, sem azedumes. A minha participação era, face à plêiade existente, supérflua. Tenho a felicidade de poder dizer que, em quase tudo o que fiz na vida, quando estive, estive com os dois pés. Se, como todos, de muitas coisas não me orgulho, contrariamente a muitos, nenhuma me faz corar de vergonha.
Tomei hoje conhecimento, através de pessoa amiga, do texto acima, parte integrante do último livro do Prof. Júlio Machado Vaz, O Tempo dos Espelhos. Apesar de o Professor já ter tido a amabilidade de, em tempo, me informar de que o faria, como protesto da sua amizade, fiquei sensibilizado. Não tanto que se me tenha molhado a pestana. O bastante para sentir que não fui esquecido.
Thanks m8!
Portocroft
Não me diga que só hoje teve conhecimento. Pois se essa parte é a parte mais deliciosa que o Professor escreveu no seu livro sobre o blog. (p. 125/126)
Boa tarde para si
Maite,
É verdade. Só hoje tomei conhecimento. Como sabe, estou limitado em termos de acesso a livros, em português. E, aliás, desconhecia que já tinha sido publicado.
Boa tarde para si, também.
Portocroft
Já foi publicado na sexta feira passada.
E sabe que mais? Para além de ser uma grande homenagem a seus pais, é essencialmente um livro em que o Professor demonstra uma grande coragem. Não é toda a gente que consegue expôr-se dessa maneira.
E agora retiro-me
Resto de boa tarde para si
Maite,
Acredito que sim. E, hei-de comprovar isso, quando o ler.
Resto de boa tarde para si, também.
Portocroft
Sem querer pôr no professor minhas palavras, penso que ao colocar este episódio no seu livro quiz de alguma forma mostrar a surpresa, o entusiasmo e a gratificação que sentiu com a criação do blog.
A tua participação no que respeita à música para alem de o fazer ultrapassar “competências informáticas” que não tinha, permitiu-lhe igualmente momentos especialmente tocantes para ele como aquele de lhe teres colocado as canções da própria mãe no blog. Isso é realmente muito especial para ele e para qualquer um…
Eu sei que não estou a ser original no que digo mas reconheço tambem que a tua participação no blog no que se refere à música foi a todos os níveis exemplar pela qualidade, pela pertinência e principalmente pela dedicação que sempre nos premiaste…
Bom dia e beijinhos para ti.
Ameninadalua,
Pois! Deve ser isso.
Bom dia e beijos.
parabéns menino:)
elogio merecidíssimo, afinal ela existe. a justiça.
beijos grandes, boa pascoa, se for caso disso.
Cristina,
Espera… Pronto. Já coloquei o babete. Diz lá isso de novo, por favor…
Beijos grande e muitos ovos de “chuclate”.
… foram os assomos de uma infância blogosférica, interrompidos pelos desencantos da juventude virtual e ultrapassados pelos generosos desassombros da maturidade de sempre.
JE,
Seja. Mas, os bisnetos do JMV mereciam mais.
P.S. - E, tem toda a razão. Há que dar desconto aos maçaricos.